Um dia, num debate depois da apresentação de “O Evangelho Segundo São
Mateus”, acho que no Espírito Santo, a Regina Bastos disse que eu estava de bem
com a vida quando escrevi esse texto. Que era meu lado iluminado. E eu fiquei
muito orgulhoso. Estávamos viajando pelo Brasil e eu carregava embaixo do braço
uma coletânea de “Pequenas Epifanias” do Caio Fernando Abreu. Tinha que
escrever um texto para um monólogo interpretado pelo meu amigo e “puta ator”
Marcio Meneghell. Não queria adaptar um conto, não queria reafirmar a persona
desgraçadamente sofrida e underground do Caio. Sei lá o que queria! Mas aquelas
crônicas, lidas e relidas, iam grudando na minha pele e sem perceber eu ia
respirando o cara. Tinha dias que falava coisas pelas palavras dele, que
argumentava sobre a vida usando o Caio sem sequer pedir permissão. E foi tanto
Caio Fernando Abreu dia a dia, que quando sentei pra escrever “O Homem Que
Acreditava”, tudo fluiu de uma maneira que até me assustou! Juro, é um texto de
puro amor! Não é só uma homenagem a esse escritor mítico e que exaltou a paixão
e a entrega ao outro; mas um ato de amor incontrolável! E é aí que eu volto ao
que a Regina disse no debate em Vitória. Caio me deixou de bem com a vida e com
as palavras. E por isso eu amo tanto este espetáculo que ensaiei com o Marcio e
que ele foi inventando, como ator, cuidadosamente, numa elaboração de
personagem que mais pareceu espiritismo! E é tão gratificante servir de ponte
entre um artista tão intenso como Caio Fernando Abreu e uma plateia que pede
atos de amor no palco. O Marcio é tão danado que tem a medida certa deste amor.
E aqui e ali acrescenta o medo, a fúria, a indignação, a dor e a paixão. E então
que nasce uma das minhas peças mais emocionantes, porque ao dirigi-la deixei
que o Caio falasse por si só e que o Marcio fizesse o mesmo. Hoje “O Homem Que
Acreditava”estreia no Festival de Curitiba, às 21 horas no Mini Auditório. Que
orgulho tenho de tudo isso! Tenho a mais profunda certeza de que o público que
lá estiver, vai viver uma noite de paixão e emoção e vai sair do teatro
correndo pra ler tudo que puder desse extraordinário ser humano que foi Caio
Fernando Abreu! Vamos ao teatro mais e mais e mais e mais...!
sexta-feira, 29 de março de 2013
CELSO CURY, NEW YORK, LUCIA, FESTIVAL, O TEMPO, ETC…
Celso Cury
Ontem à noite no hall de entrada do Teatro da Reitoria, esperando pra
assistir “A Marca da Água”, do Armazém, encontrei, ou melhor, fui encontrado,
pelo Celso Cury. Quem é o Celso Cury? Um homem de todos os teatros. Um homem a
quem o teatro brasileiro deve tanto e, principalmente, o de São Paulo. Muito da
nossa cena passou e passa pelas suas mãos e pelos seus olhos. Ele continua o
mesmo, mais maduro, como eu, mas vivo e belo com seus olhos de paz e arte. Ele
me reconheceu depois de tantos anos. Nos conhecemos pelos caminhos da Lucia
Camargo, em 1990, quando eu dirigi “New York Por Will Eisner”, para o Teatro
Guaíra e ele nos ajudou a levar o espetáculo ao Teatro Sérgio Cardoso, em São
Paulo, para uma temporada de 10 dias seguidos. Éramos uns sedentos de teatro! Em nosso abraço, eu soltei "você ainda me reconhece?" E aí que ele disse uma frase que me arrepiou, daquelas que definem um jeito de
pensar a vida, aconteça o que acontecer, e acontece: “Eu só tenho lembranças
boas!” Que bom! Em 1991, como nosso sonho de mostrar “New York Por Will Eisner”
para São Paulo, ele nos deu uma força incrível. Não teríamos ido se não fosse
sua amizade e ação. Fomos com grande dificuldade (os tempos eram outros!), mas tivemos um excelente
público naquele teatro imenso de 900 lugares! E, encontrando também a Lúcia
Camargo, o tempo fez um rodopio e, célere e violento, pousou, irônico e
engraçado à minha frente. Cá estamos todos nós, pensei, vibrando ainda pelo teatro, sonhando
ainda com os sonhos dos artistas e buscando encantos e belas ideias nos palcos.
O teatro é a nossa vida, disso não há a menor dúvida. E digo mais, é o que nos
faz ter a certeza de que tudo quanto fazemos, fizemos e faremos não é em vão.
É mais ou menos como quando nos apaixonamos por alguém. Não importa se é um bom ou
um mal ator, por exemplo (se for!)... Simplesmente nos apaixonamos. E o teatro é desse
jeito. Desde 1990 até aqui, quanta coisa excepcional vimos e fizemos, quanta coisa
equivocada, quanta coisa boba, quanta coisa linda, quanta coisa estranha....Mas
é o nosso teatro, não? O sangue que corre, bipolar, em nossas veias. Enfim... o
Festival de Curitiba tem também essa virtude, fazer com que pensemos loucamente
em nossa história. Eu costumo dizer que durante os 10 dias do Festival, os
curitibanos (artistas e público) assumem três máscaras: a falsidade, a simpatia
e a hipocrisia. Fazemos de conta que tudo é genial, queremos que todos pensem
que nossa capital é o reino da cortesia, então que aplaudimos em pé qualquer
espetáculo que venha de fora e hipócritas porque derramamos elogios fáceis sem
sequer pensar mesmo se aquela é nossa opinião e se realmente precisamos dá-la.
Mas isso é um festival, não? O momento em que entre dramas e comédias, o teatro é a grande festa em que, mesmo nas coxias somos reis e rainhas. E é também o momento de
reencontrar pessoas que foram importantíssimas em nossa carreira. E olha aí eu
voltando ao Celso Cury. Obrigado, amigo! E que bom encontrá-lo ontem! Um
beijão! E mais uma vez, obrigado!
O meu "New York Por Will Eisner", que levamos ao Teatro Sérgio Cardoso em 1991
GÊNIOS & IMBECIS
Foto de Chico Nogueira
“O artista tem que ser gênio para
alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.”
– Nelson Rodrigues
Hoje, às 21 horas e amanhã, às 12 horas são as últimas
apresentações de “CANALHAS!!!”, no Mini-Auditório do Teatro Guaíra. O universo
do artista/pensador/dramaturgo num concerto de ironias e tragédias. Ontem o
espetáculo foi emocionante!!!
Foto de Chico Nogueira
quinta-feira, 28 de março de 2013
OLHA NÓS ALI + UM BAIANO
Coquetel de abertura da Mostra Baiana do Fringe no Memorial de Curitiba: Marcelo Zulian, Renata Chemin, Edson Bueno... o baiano "puta de um ator" Talis Castro e o xodó Lucas Ribas.
UMA PIAZADA BOA DEMAIS!
Fernando Turri, Adriana Fróes e Igor Augustho... ótimos!
Quinta-feira, duas horas da tarde, Teatro. Só no Festival de Curitiba
mesmo! E fui ao Café Teatro Toucher La Lune pela primeira vez. Assistir “Peripécias
– Histórias para Crianças nem um pouco Inocentes”- Em primeiro lugar, uma
beleza o teatro. Delicado, charmoso, com um café lindo na entrada, onde tocava
Chico Buarque num toca-discos e um LP rodando. Uma delícia. E o espetáculo? Ah,
que bom! Eu penso que o começo de tudo é o conhecimento de causa. Dois piás e
uma guria, novinhos, intensos e talentosos. Fazendo teatro com as suas
inquietações e com a sua poesia muito própria, conhecidíssima por eles mesmos e
que pulsa, na boa, em cada pedaço dos seus corpos. Organicidade pura! E mais ainda, sai pela boca
com voz firme, presente, artística e, realmente, cênica! O assunto? O título
diz tudo! São as crianças e os adolescentes peitando a vida com suas lógicas
muito próprias e suas soluções, às vezes tortas, às vezes certeiras, às vezes
fantasiosas. E o que impressiona neste suave espetáculo é a absoluta
sinceridade de tudo! É lindo ver aqueles três meninos (Adriana Fróes, Igor
Augustho e Fernando Turri), muito artistas de teatro e tão jovens, de peito aberto,
dizendo o que têm vontade de dizer e, de verdade, fazendo teatro de reflexão,
teatro que quer dizer coisas (e diz!), tudo com muita inocência, humor e
inteligência. O texto é uma joia poética. Tem um fechamento emocionante que vai
em lugar de excelente dramaturgia. Uau! E ainda mais duas coisas importantes!
Direção calma, suave e consciente de ritmo e tonalidade da Éri Buhrer, além de
uma sonoplastia perfeita! Que delícia! Como me fez bem ter ido ao Touché La
Lune neste começo de tarde! Parabéns! São e serão grandes teatreiros!
Assinar:
Postagens (Atom)









